página inicial | contatos    
Buscar no site:
Artigos
 
E O VÉU, REALMENTE FOI RASGADO? - Por Augusto Guedes
 
“Mais ou menos ao meio dia o sol parou de brilhar e uma escuridão cobriu a terra até as três horas da tarde. E a cortina do templo se rasgou pelo meio. Aí Jesus gritou bem alto: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito! Depois de dizer isso, ele morreu. Quando o oficial do exército romano viu o que havia acontecido, deu glória a Deus, dizendo: De fato, este era inocente! Todos os que estavam reunidos ali para assistir àquele espetáculo viram o que havia acontecido e voltaram para casa, batendo no peito em sinal de tristeza. Todos os amigos de Jesus e as mulheres que o tinham seguido desde a Galiléia ficaram de longe, olhando tudo aquilo.” (Lucas 23:44-49).
De longe, seja essa distância geográfica diante dos quilômetros que nos separam daquele local, ou temporal diante dos cerca de 2000 anos que nos separam daquele dia, seguidores de Jesus ainda estão a contemplar aquele tremendo episódio.
De longe, contemplamos não apenas tudo aquilo que nos é retratado através de filmes, peças teatrais, pinturas, e até mesmo narrado pelos escritos bíblicos, sejam os efeitos cósmicos acontecidos naquele momento, ou as últimas palavras de Jesus, ou talvez o ato de louvor por parte do oficial romano que creu, ou ainda a tristeza por parte dos espectadores do espetáculo, mas contemplamos também o fato de que a cortina do templo, o véu como é mais costumeiramente chamado, foi rasgado de cima a baixo.
Este fato muitas vezes tem sido inspiração para as nossas canções, observação para os nossos estudos, informação para as nossas mentes, mas precisa ser principalmente fator de libertação para os nossos seres. Trata-se de algo que nos atinge diretamente, cujos efeitos muitas vezes não nos apercebemos, e que apresenta implicações para além daqueles dias, daquele local e daquelas pessoas. O véu foi rasgado de cima a baixo e não de baixo para cima. Quem o rasgou foi o Senhor, o Deus do universo, o Todo-Poderoso, e os Seus propósitos em fazê-lo são preciosos, espirituais e extraordinários.
O véu rasgado repercute nas nossas vidas como igreja, quer coletividade, quer indivíduos. Trata-se de um marco que deve distinguir objetivamente a igreja que poderíamos chamar de anterior a este episódio, daquela que também podemos classificar como posterior ao mesmo. Tal fato aconteceu no momento da morte do Senhor Jesus, do cumprimento da profecia restauradora e redentora por parte do Messias e que tantas mudanças trouxe não apenas em relação a práticas e costumes, mas, sobretudo, à forma de relação de Deus com o Seu povo e vice-versa. O curioso é que podemos observar na atualidade uma igreja na sua maioria consciente do significado de tal fato, porém com práticas e modelos anteriores ao “véu rasgado”. Parece que somos uma igreja ‘pós-véu rasgado’, mas com forte tendência às práticas e costumes do antigo testamento e que de forma inconsciente escolhe como ser igreja de acordo com a conveniência, o bem estar, os costumes e tradições culturais, as crenças equivocadas, e não com os propósitos divinos. Vejamos:
Agora a “presença de Deus” está em nós.
O Espírito Santo de Deus, que nos tempos do antigo testamento entrava e saía da vida das pessoas, a exemplo do Rei Saul que por muitas vezes não estava com Ele e sim possuído por espíritos maus fazendo com que o músico Davi fosse tocar a fim de expulsá-los, agora no N.T. habita permanentemente na vida daqueles que crêem e aceitam o sacrifício do Senhor Jesus na cruz em seu favor. O mais forte recado dado pelo próprio Deus ao romper de cima a baixo aquela cortina que separava o “Lugar Santo” do “Santo dos Santos” que existia inicialmente no tabernáculo e depois reconstituído nos templos, é que a partir daquele instante o homem passava a possuir livre acesso à presença do Pai, anteriormente apenas permitida ao sumo sacerdote, apenas uma vez por ano, no dia da expiação. Ou seja, o privilégio de gozar da presença de Deus, antes restrita a um local, e a apenas um homem, e apenas uma vez no ano, agora era estendido a todos os Seus filhos, a qualquer hora e em qualquer lugar. Aleluia! É interessante notar que no momento da morte do Senhor Jesus, muitos perderam aquele “espetáculo” porque talvez estivessem no templo. E foi principalmente a esses que ali estavam (talvez os viciados em templos) que o Senhor Jesus mostrou que a Sua presença dali em diante extrapolaria aquele local, passando a estar ininterruptamente conosco. Não sei se havia condições para que eles entendessem a grandiosidade dessa verdade naquele exato momento, mas a nós que já passamos por todo um processo informativo cabe a responsabilidade de agirmos com tal entendimento. A nós que já sabemos que dias depois Jesus reapareceu vivo e foi assunto aos céus, deixando-nos o Espírito, cabe a consciência de andar nEle e com Ele. Quando entendemos realmente isso, é mais fácil aceitar que a nossa adoração a Deus passa a ser prática além das quatro paredes das casas de adoração, e além dos chamados dias sagrados que estabelecemos. Mesmo assim, muitas vezes ao nos reunirmos nos dias de hoje, ministros da palavra e do louvor iniciam os cultos de forma equivocada, convidando-nos ou anunciando que vamos entrar na presença de Deus, quando na realidade já viemos nela, pois o próprio Deus habita em nós, em espírito. E muitas vezes nós mesmos agimos de forma equivocada ao elegermos locais e dias especiais para a adoração a Deus, considerando-os mais especiais ou santificados, quando na realidade ‘pós-véu rasgado’ o templo sagrado onde Deus habita é o nosso ser, o nosso coração, e o dia especial para adoração é a nossa vida cotidiana. Alegremo-nos nEla!
Agora os sacerdotes de Deus somos nós.
O culto a Deus nos tempos do antigo testamento era baseado em sacrifícios, os quais eram oferecidos como forma de reconhecimento de pecado e como adoração, e que requeriam a garantia da presença e do favor de Deus. Numa espécie de pedagogia divina foi ordenado todo um conjunto de rituais que apontavam para o Senhor Jesus, a fim de que o homem viesse a entender o sacrifício que seria apresentado pelo próprio Deus através do Seu Filho, vítima inocente morta em nosso lugar, para quem os nossos pecados foram transferidos e em quem a nossa morte foi executada nos gerando perdão, reconciliação, liberdade e vida abundante e eterna. Muitos foram os sacrifícios apresentados pelo homem a Deus, no entanto, jamais se ofereceu uma oferta definitiva para o pecado até o momento em que Cristo, “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”, a oferta final em favor do homem, o sacrifício perfeito, foi oferecido por Deus em nosso favor (hb. 9:11-12). “Sua vida impecável O qualificou para ser o sacrifício pelo pecado, no entanto, a Sua morte foi que efetuou o pagamento pelos pecados”.
A partir daquele instante, não apenas o acesso à presença do Pai foi liberado, e não apenas a possibilidade da permanente habitação do Espírito de Deus em nossas vidas, mediante a fé no sacrifício do Filho, foi concedida, mas também todo aquele modelo de culto que incluía normas rígidas e rituais de sacrifícios não mais se torna necessário. A adoração deixa de ser algo representativo para ser participativo, deixa de ser coisa de especialistas como, por exemplo, os sacerdotes, que apresentavam os sacrifícios e representavam o povo diante de Deus, ou como os levitas, que cuidavam de todo o serviço que incluía desde a guarda e limpeza do lugar, a manipulação dos animais a serem sacrificados, até a apresentação dos cânticos e da música de uma forma geral, e passa a ser algo comum a todos. Creio que este é um outro recado muito importante dado por Deus ao rasgar o véu de cima a baixo: O fato de que todos nós fomos ‘feitos sacerdotes’ a partir de então. Não mais é necessário que um homem tido como ‘mais santo’ apresente diante de Deus o nosso clamor e a nossa adoração. A intermediação de um ‘sacerdote’ passou a ser desnecessária na nossa relação com Deus. Por meio de Jesus, podemos oferecer “sacrifícios de louvor, que é fruto de lábios que confessam o Seu nome” (Hb.13:15).
Dali em diante os nossos olhares deixaram de ser num Cordeiro que viria para ser morto em nosso lugar e passaram a celebrar a presença de um Deus que veio para ser íntimo em nossas vidas. A prática dos nossos rituais deixou de ser centralizada numas poucas pessoas e passou para a coletividade. Agora, todos nós, na diversidade dos dons que nos são presenteados pelo Espírito Santo, ministramos (servimos) uns aos outros, edificando a igreja (as pessoas), e celebramos, segundo instrução do próprio Senhor Jesus, a Sua presença em nós, testemunhando aos outros através da cerimônia do batismo, e a Sua presença entre nós, comungando com os outros através da cerimônia da ‘ceia do Senhor’. Essas duas práticas, uma de iniciação e outra de celebração da Sua vitória sobre a morte, foram não só realizadas por Jesus, mas ordenadas por Ele. E esse fato nos deixou não só exemplo de obediência, mas também de forma de execução. Nela encontramos fortemente presentes a espontaneidade e a simplicidade, ambas atreladas a uma participação coletiva cheia de liberdade, prazer e alegria. Mesmo assim, nos dias de hoje, quando nos voltamos a pensar em celebrar tanto o ‘batismo’ quanto a ‘ceia’ encontramos muitas vezes mais peso e julgo do que leveza e satisfação, mais determinações e exigências do que estimulo e incentivo, e, talvez até mais aparência do que essência. Quanto mais regras e pré-requisitos criarmos tanto para a ministração quanto para a participação em tais celebrações, além do simples fato bíblico de crer no Senhor Jesus, no seu sacrifício, e na sua volta, mais distantes estaremos do culto requerido pelo Senhor. Quanto mais ritos, formas, ordens, seqüências, vestes e exigências fizermos, mais distantes estaremos do que o coração de Deus deseja como culto após o episódio do véu rasgado. O culto cheio de regras, sacrifícios, rituais, cerimoniais, e até de profissionais da religião, sejam eles levitas e/ou sacerdotes é coisa de antes de antes de tal acontecimento. A igreja posterior a tal fato celebra conjunta, livre e espontaneamente o sacrifício perfeito de Jesus na cruz, que elimina todos os outros, e louva e exalta o Seu precioso Nome, através das mais diferentes e espontâneas formas de expressão coletiva e individual, com os mais diversos dons e ministérios. A igreja ‘pós-véu rasgado’ é composta por homens e mulheres livres que ministram e são ministrados, abençoam e são abençoados, tudo em função do exercício da relação de intimidade desenvolvida com Deus, Seu maior propósito.
Quando entendemos realmente tudo isso, é mais fácil aceitar não apenas a simplificação nos rituais de culto, ou a participação comunitária neles, mas principalmente a realidade de que em Cristo todos fomos feitos ministros do Senhor, inclusive aqueles que tanto nos abençoam exercendo algum tipo de liderança, e que, de forma equivocada muitas vezes continuamos elegendo como os que devem fazer por nós...
Aí eu volto a perguntar... E para você? O véu foi realmente rasgado?


Augusto Guedes é um dos fundadores do ISA - Para saber mais consulte o "Quem Somos".
Voltar aos Artigos
 

<< Retornar


Faça seu site conosco!