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FATO E FICÇÕES DO CÓDIGO DA VINCI - Por Márcio Rocha
 
O Livro O Código da Vinci de Dan Brown, que vendeu até hoje aproximadamente quarenta milhões de cópias em diversos países, é agora uma superprodução da indústria cinematográfica a estrear internacionalmente no dia 19 de maio de 2006, dirigido por Ron Howard e estrelado por Tom Hanks. A obra, um romance, não teria causado tanto fascínio e polêmica se não tivesse discorrido sobre Jesus Cristo e não tivesse misturado alguns fatos históricos, obras de arte e prédios reais com teorias e doutrinas de antigas religiões pagãs e outras idéias da própria criatividade do autor, para criar uma trama que tenta passar uma versão sobre o Cristianismo bastante diferente daquela que consta nas páginas do Novo Testamento da Bíblia, admitido classicamente como verdadeiro e autêntico pelos historiadores, teólogos e estudiosos de todo o mundo. Penso que a obra também não teria impactado tanto as pessoas se a Igreja Católica Romana não tivesse praticado tantas arbitrariedades e até crueldades durante a Idade Média.

Será que quase tudo o que aprendemos sobre Jesus Cristo está errado? Esta é a idéia central que a obra de Brown tenta incutir na mente dos leitores e agora dos que assistirão ao filme. Desde que o livro foi lançado, tenho percebido quatro diferentes tipos de reações nas pessoas que o leram e imagino que o filme provocará as mesmas impressões, mas em maior escala, devido à popularidade do áudio-visual na sociedade moderna, principalmente junto à população jovem, que normalmente não é muito adepta da leitura como fonte de prazer e informação.

Os cristãos maduros, aqueles com alguns anos de caminhada na fé cristã, reagem ao Código da Vinci de modo bastante tranqüilo. Não se abalam, pois têm profunda convicção da autenticidade da Bíblia e da verdadeira História do Cristianismo, como se encontram nos diversos documentos antigos. Apenas lamentam que a obra possa iludir os menos esclarecidos e inexperientes. Os cristãos novos, que se converteram há pouco tempo, ficam confusos, mas a maioria, ao procurar seus líderes e pastores, logo tiram suas dúvidas e conseguem separar os fatos das ficções que constam no “Código”. A terceira reação vem dos cristãos nominais, aqueles que se dizem ser ‘cristãos não praticantes’. Esses ficam bastante confusos e perplexos e até passam a duvidar da Igreja Cristã e da Bíblia e a defender Dan Brown como se ele fosse um teólogo ou um historiador. A quarta reação é a do dos ateus e adeptos de outras religiões (principalmente os da Nova Era). Esses estão eufóricos com o Código da Vinci, pois pensam que enfim surgiu uma obra que “prova” que o Cristianismo é uma farsa e que estão, portanto, liberados nas regras rígidas daquela religião.

Preparei este artigo pensando nos cristãos novos, nos ‘cristãos não praticantes’ e nos ateus. Espero contribuir para esclarecer e separar os fatos das ficções, com relação ao que considero serem os principais argumentos que o livro e o filme utilizam para tentar reescrever e re-elaborar o Cristianismo.


Ficção
O Priorado de Sião, sociedade secreta européia fundada em 1099 – existe de fato e os seus dossiês secretos são autênticos.

Fato
O Priorado de Sião foi formalmente registrado em 1956, no cartório de St. Julien em Genevois, na França, não tendo qualquer conexão com a Idade Média. Foi fundado por quatro membros: André Bonhomme (presidente), Jean Delaval (vice-presidente), Pierre Plantard (secretário geral) e Arman Defago (tesoureiro). Segundo Darrel L. Bock, no livro Quebrando o Código da Vinci, “o presidente original, André Bonhomme, fez a seguinte declaração em 1996 no especial da BBC sobre o grupo: “O Priorado de Sião não existe mais. Nunca estivemos envolvidos em atividades de natureza política. Era só um divertimento de quatro amigos. Escolhemos o nome Priorado de Sião por causa de uma montanha de mesmo nome que ficava ali perto. Não vejo Pierre Plantard há mais de vinte anos e não sei o que ele anda fazendo, mas ele sempre teve muita imaginação. Não sei por que as pessoas estão tentando transformar uma bobagem em uma coisa tão grandiosa.” Os dossiês secretos não passam de uma fraude armada por Pierre Plantard. O próprio Pierre Plantard confessou à justiça francesa ter sido o inventor dos tais dossiês, com a intenção de ascender ao trono da França como um suposto descendente dos reis merovíngeos e de Jesus Cristo.


Ficção
Jesus era casado com Maria Madalena.

Fato
Testemunhas oculares que passaram tempo significante com Jesus nunca sequer evidenciaram que Ele tenha se casado. Muitos membros da família de Jesus são mencionados na Bíblia (pai, mãe, irmãos e irmãs – ver Mateus 13:55; Marcos 6:3 dentre outros textos), mas nenhuma esposa. Além disso, ao contrário do que o Código da Vinci diz, nenhum dos evangelhos gnósticos, cujos manuscritos foram encontrados em Nag Hamadi (Egito) em 1945, contêm qualquer referência a uma relação matrimonial entre Jesus e Maria Madalena. O único escrito gnóstico que contém uma indicação de uma relação especial entre Jesus e Maria Madalena é o Evangelho de Maria Madalena, o qual possui um texto que indica que Jesus a beijou, mas não dá para saber onde, pois o manuscrito encontrado desse livro está incompleto, faltando palavras, devido à ação do tempo.



Ficção
Jesus teve uma filha e sua descendência é viva hoje.

Fato
Em nenhum documento histórico e em nenhuma parte do Novo Testamento existe qualquer texto falando acerca de Jesus ter sido casado e ter tido filhos. Nem mesmo os escritos gnósticos dão qualquer evidência neste sentido. É interessante que nenhum dos “historiadores” mencionados no Código da Vinci, que supostamente escreveram com “exaustivos detalhes” sobre a “real linhagem” de Jesus Cristo são, de fato, historiadores.


Ficção
Maria Madalena está na mesa, no quadro “A última ceia” de Da Vinci.

Fato
A pessoa em questão, na pintura, é o apóstolo João, sentado ao lado direito de Jesus. João, o discípulo mais novo, foi pintado com aspecto feminino, pois, segundo diversos historiadores e especialistas em obras de arte da renascença italiana, essa era uma técnica usada para expressar juventude, beleza e santidade. Vê-se essa mesma técnica em outros quadros de Leonardo da Vinci e de outros artistas. Isto não quer dizer que o personagem pintado era uma mulher. No mesmo mural (A última ceia), existem outros personagens retratados com feições femininas, como o discípulo Filipe (o terceiro à esquerda de Jesus). Leonardo da Vinci pintou a famosa obra em uma parede do refeitório do convento Santa Maria delle Grazie, em Milão, por solicitação dos seus membros. Os monges e párocos daquele convento conheciam muito bem o texto bíblico e jamais admitiriam uma pintura dentro de seu convento, que estivesse em desacordo com as Escrituras. Ainda por cima, o “código” de Dan Brown não responde à seguinte pergunta: Se a pessoa à direita de Jesus não é o apóstolo João, onde está ele na pintura? Teria Leonardo da Vinci se esquecido de que João estava na última ceia, segundo o texto bíblico que ele mesmo usou como inspiração para pintar o mural?


Ficção
Os discípulos de Jesus não o consideravam divino. Esta idéia só foi inventada no Concílio de Nicéia em 325 D.C.

Fato
Desde o seu ministério na terra, a divindade de Jesus Cristo era reconhecida e proclamada pelos seus discípulos, como está evidenciado nas palavras de Tomé: “Senhor meu e Deus meu” (João 20:28), ditas para Jesus. Pedro também declarou em Mateus 16.16: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus Vivo”. Os cristãos se referiam a Jesus com termos que denotavam sua divindade desde os primeiros dias da Igreja. Isto está registrado não somente no Novo testamento (que Dan Brown acusa ter sido “montado” no Concílio de Nicéia), mas também em outros escritos fora da Bíblia. Um exemplo é o livro extra-canônico Didaquê que os estudiosos concordam unanimemente ter sido escrito no final do primeiro século (antes do ano 100 D.C.).


Ficção
O nome sagrado de Deus tem uma origem pagã. De acordo com Dan Brown, O tetragrama judeu YHWH é derivado de Jehowah, uma divindade andrógina, resultante da união física entre o masculino Jah e o nome pré-Hebraico de Eva Havah.

Fato
Os antigos israelitas usavam o tetragrama YHWH como o nome de Deus. Porém, como decorrência do temor de infringirem o terceiro mandamento (Êxodo 20:7), eles pararam de verbalizar o nome de Deus e a pronúncia original se perdeu. Os mais renomados especialistas em Hebraico antigo apontam que a pronúncia era algo como IAVÉ ou IAUÉ, porém não há uma certeza sobre esta pronúncia, pois a língua hebraica escrita não possui vogais. O Judaísmo não possuía nenhuma entidade divina “andrógina”, resultante da união física (?) de dois outros deuses. Aliás, o judaísmo foi a primeira religião monoteísta que se conhece ter surgido na História e proclama a existência de um único ser superior, espiritual, eterno, sem princípio nem fim, portanto, não gerado da união de outros deuses anteriores.


Ficção
O Novo Testamento foi forjado.

Fato
Dan Brown sugere que os evangelhos gnósticos e os pergaminhos do mar morto são os textos originais do Cristianismo, e não os da Bíblia. No entanto, esta afirmação é claramente desmentida por inúmeros estudiosos cristãos e não cristãos. Os estudiosos são praticamente unânimes quanto ao Novo Testamento ter sido escrito no primeiro século (entre o ano 60 e o ano 95 D.C.), enquanto que os escritos gnósticos foram escritos no segundo século (a partir do ano 140 D.C.). A maioria dos livros do Novo Testamento foi escrita por testemunhas oculares que estiveram com o próprio Jesus durante aproximadamente três anos ouvindo-o pessoalmente. Outros foram contemporâneos dele, como Paulo e Lucas o médico. Os textos gnósticos nunca puderam ter suas autorias confirmadas, isto é, não foram escritos por quem está indicado nos seus títulos. Em outras palavras, os “Evangelhos” de Tomé, de Maria Madalena, e de Pedro não foram escritos por Tomé (o discípulo), nem por Maria Madalena, nem por Pedro (o discípulo). Quanto aos Pergaminhos do Mar Morto, encontrados nas cavernas de Qumran, em 1947, Dan Brown cometeu um grave erro, demonstrando que tem pouco conhecimento dos fatos. Tais documentos são manuscritos de livros do Antigo Testamento e não têm nada a ver com escritos cristãos de qualquer tipo. O Novo Testamento é o documento que possui o maior número de manuscritos antigos entre todos produzidos pela humanidade. Existem aproximadamente 24.000 manuscritos de textos dos livros do Novo Testamento nos principais museus da Europa e dos Estados Unidos. Depois do Novo testamento, a obra literária mais documentada é a Ilíada de Homero, com aproximadamente 5.000 manuscritos. Os livros do Novo Testamento são, portanto, os autênticos escritos do Cristianismo.


Ficção
O Cristianismo pegou idéias de religiões pagãs, particularmente do culto ao deus pré-cristão Mitras, que era chamado de ‘Filho de Deus’ e ‘Luz do mundo’.

Fato
De acordo com Amy Welborn, no livro De-coding Da Vinci Code (Decodificando o Código da Vinci), “Mitras era um deus com muitas formas. Por séculos depois de Cristo o culto a Mitras era uma misteriosa religião, popular entre homens, especialmente entre soldados. Estudos sobre Mitras jamais revelaram qualquer atribuição a ele como ‘Filho de Deus’ ou ‘Luz do mundo’, como afirma Dan Brown. Também não há nenhuma menção a uma ressurreição na mitologia Mitraica”.



Marcio Rocha é Engenheiro Civil, Mestre em Gestão Pública, Músico Cristão e estudioso da Bíblia e da História do Cristianismo. Um dos Fundadores do Instituto ser Adorador – ISA (www.seradorador.com.br).

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