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DE VENTO EM POPA - FÉ CRISTÃ E MPB - Por Jorge Camargo
 
De Vento em Popa representa um marco por se tratar de um primeiro trabalho, na discografia de Vencedores, cujas canções são todas escritas por autores e compositores brasileiros. Esteticamente o disco é o que se poderia chamar de revolucionário para os padrões de música religiosa daquele tempo. Teologicamente, observou-se o oposto.

Conforme depoimento de Nelson Bomilcar, um dos produtores musicais do disco, antes da gravação do projeto, Jaime Kemp, fundador e líder de VPC e os compositores e produtores artísticos que tinham em mente uma obra musical cujas referências religiosas fossem mínimas (quase que um trabalho eminentemente secular), estabeleceram um acordo: em troca de um álbum exclusivamente com canções de autores e compositores nacionais, o conteúdo teria um apelo evangelístico dentre dos moldes de uma visão mais conservadora, como uma tentativa de atenuar as prováveis críticas da liderança evangélica da época à proposta arrojada de um disco que se propunha a utilizar as referências musicais presentes na mídia do país.

Por conta desse “acordo”, as canções selecionadas para o disco foram as que aliaram uma forma que refletia as tendências da música da época a um conteúdo ligado a um acentuado conservadorismo teológico.

Revolução estética
Dentre os instrumentos utilizados nas gravações, o violão de nylon, por exemplo, atesta esta revolução estética. Instrumento harmônico mais popular no país, o violão teve destaque acompanhando as valsinhas e serestas do início do século, e posteriormente os sambas e marchinhas de carnaval que dominaram o cenário da música popular nos anos posteriores.

Em todos esses ritmos, o violão geralmente utilizado era o de cordas de aço, que permitiam uma melhor utilização dos bordões para os chamados floreios, além de, por natureza, possuírem um volume maior de reverberação sonora comparada aos de nylon, conhecidos também como violões clássicos e mundialmente difundidos pela música espanhola.

Com o advento da bossa nova no final da década de 1950, ocorre uma mudança de referencial com relação ao uso do violão como instrumento de acompanhamento na música popular brasileira. João Gilberto, considerado o pai desse novo estilo musical, passa a utilizar o violão de nylon como seu instrumento principal, introduzindo uma nova maneira de tocá-lo e reproduzindo componentes rítmicos na batida do novo estilo (executada ao violão), tornando a bossa nova produto cultural nacional de exportação.

A partir de então, o violão de nylon vira coqueluche nacional entre os artistas de sucesso, particularmente entre os engajados politicamente.

Com Sérgio Pimenta e Aristeu Pires Jr., o violão de nylon é instrumento de destaque na composição sonora do disco De Vento em Popa.

Há também a presença, em uma das faixas (Por onde vais), do bongô, instrumento de percussão de origem cubana, constituído por dois pequenos tambores unidos por uma barra de metal, e que são tocados com baquetas ou com os dedos.

A utilização de um instrumento com essas características em uma gravação de música religiosa cristã naquela época foi considerada por muitos líderes mais conservadores uma verdadeira afronta. Instrumentos de percussão em geral eram associados aos rituais das religiões afro-brasileiras, não podendo, portanto, servir de acompanhamento ou adorno a nenhum tipo de música que se propusesse a ser cristã. O De Vento em Popa mais uma vez revoluciona.

Vale destacar também a concepção harmônica do disco. Mesmo em algumas canções de harmonia não tão rebuscada, a exemplo da faixa O Reino do Filho, determinados acordes mostram uma certa influência jazzística, o que revela um cuidado por parte dos compositores e arranjadores de dar ao trabalho uma sofisticação que não era comum à época.

É preciso que se diga, no entanto, que as canções não possuem todas um estilo eminentemente nacional, até porque definir o que é música popular brasileira não é uma tarefa fácil nem simples.

Segundo Elizabeth Travassos (1997, p. 93), entre oscilações e combinações das diversas maneiras de se entender os termos “povo” e “cultura”, diferentes são os resultados e por conseqüência as acepções do que seja música popular. Logo, não seria de se supor que os estudiosos que escrevem em referência à música popular têm em mente a mesma coisa.

O repertório do De Vento em Popa incluiu sambas, baladas, rock baladas e valsas, resultado das influências do ambiente urbano onde foi gerado.

Há, contudo, uma predominância dos estilos que poderiam ser identificados com os ritmos nacionais, e, mais do que isso, com os estilos e ritmos que dominavam o cenário cultural da época.

É o caso da canção título, De Vento em Popa, um samba cuja interpretação lembra as harmonizações do MPB4, grupo vocal carioca de muito sucesso na década de 1970. Além do estilo musical harmonizado com o momento nacional e com o som de sua época, a letra possui elementos de diálogo entre a mensagem cristã e a cultura brasileira. Ela lança mão de imagens e do contar de histórias, técnicas presentes nas parábolas da antiguidade e nos folhetins eletrônicos (novelas), tão influentes na cultura nacional.

A canção descreve dois homens velejando que, por conta de um pileque, perdem a noção do tempo e se colocam em uma situação de risco em mar aberto. A vida é comparada a essa situação, caracterizada pelo vazio existencial – “ou de outro pileque, achando até que encontrou a paz” - e pela falta de perspectiva – “pense talvez seja esta a sua vida, lute até encontrar um mundo melhor”. Os valores espirituais são apresentados por associação a textos bíblicos (“Jesus batendo na tua porta deseja entrar”, em referência a Apocalipse 2.9) e por metáforas que tentam comunicar o significado desses valores de maneira criativa, por exemplo quando se referem a uma definição do que seria uma vida sem Deus (“quer te salvar (...) de um sul sem norte”).

Há, por fim, o convite para se abraçar o chamado ao discipulado de Cristo (“abre o coração derruba a muralha, deixa que Jesus te abrace também (...) vive pra Jesus o Senhor”) e à proclamação do evangelho (“canta ao mundo inteiro uma vida tão linda”), que é o anúncio do amor, do perdão e da graça (“conta o que é ter perdão pelo amor (...) quantas bênçãos há na graça infinda”).

DE VENTO EM POPA
Aristeu Pires Jr.

De vento em popa o sol por cima embaixo o mar
A voz tão rouca já desafina se vai cantar
E os dois no barco rasgando as ondas
Vagando ao som das canções do cais
Ou de outro pileque achando até que encontrou a paz

Mas veja lá no fim da história o que fica
Veja o que restou do pobre rapaz
Vendo que por baixo o mar já se agita
E por cima o sol calor já não traz

Pense talvez seja esta a sua vida
Lute até encontrar um mundo melhor
Onde a dor no peito não tem guarida
Onde brilhe sempre o sol

Jesus batendo na tua porta deseja entrar
Não lhe importa tua vida torta, quer te salvar
De um mundo torpe, de uma vida morta
De um sul sem norte, da morte enfim
E um novo riso te por nos lábios,
Uma nova vida que não tem fim

Abre o coração, derruba a muralha
Deixa que Jesus te abrace também
Deixa que te inunde um amor que não falha
É o desejo de quem só te quer bem

Canta ao mundo inteiro uma vida tão linda
Conta o que é ter perdão pelo amor
Quantas bênçãos há na graça infinda:
Jorge Camargo - Músico, compositor, escritor, poeta. Com suas canções tem abençoado a igreja brasileira ao longo dos anos. Qualidade e conteúdo traduzem bem o seu trabalho. Saiba mais acessando: www.jorgecamargo.com.br
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