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DE VENTO EM POPA - FÉ CRISTÃ E MPB - II - Por Jorge Camargo
 
Os primórdios – as canções e os momentos
No primeiro compacto de VPC – Vencedores por Cristo I, além da canção Mais que vencedores (que deu nome à organização), destaca-se a gravação de Deus tem o mundo em suas mãos, uma antiga canção gospel no sentido original da palavra, ou seja, uma música ao estilo que teve origem no canto dos escravos norte-americanos. O acompanhamento instrumental era composto principalmente por órgão, violão e contra-balde, uma imitação criativa do que seria um contrabaixo, composta por um balde de alumínio com a face voltada para o chão e um cabo de vassouras afixado no centro de sua circunferência, com um barbante na ponta do cabo, que, ao ser pressionado e de acordo com determinada inclinação, produzia as notas desejadas.

Foto: Equipe de VPC – à esquerda, no chão, o contra-balde (Fonte: VPC)

No segundo compacto, Vencedores por Cristo II, a canção Satisfação, composta por Ira R. Stanphill (1914-1994), músico norte-americano que se notabilizou por acompanhar pregadores dos movimentos avivalistas (Conhece-se como Movimentos Avivalistas os movimentos de avivamento surgidos na Inglaterra e Estados Unidos a partir do século XVIII) de meados do século XX, popularizou-se nas reuniões de jovens das comunidades evangélicas e nos acampamentos da época:

Satisfação é ter a Cristo
Não há melhor prazer já visto
Eu sou de Jesus e agora sinto
Satisfação sem fim

Sim paz real,
Sim gozo na aflição
Achei o segredo
É Cristo no coração!

No terceiro compacto, Vencedores por Cristo III, compõe o repertório, entre outras, a canção Não meu querer, de Harry Bollback, fundador do ministério Word of Life (Palavra da Vida), estabelecido no Brasil na década de 1960 e conhecido até hoje por sua rigidez doutrinária e nos usos e costumes. Jaime, no início de sua estada no Brasil, foi professor de teologia e música no Seminário Bíblico Palavra da Vida.

No quarto compacto, Vencedores por Cristo IV, entre algumas canções tradicionais de autor desconhecido, destacam-se composições de John W. Peterson e Don Wyrtzen, ambos compositores de renome no cenário da música sacra norte-americana entre as décadas de 1950 e 1960, o que concedia ao grupo um status de modernidade e atualidade, mas que também gerava críticas vindas dos círculos conservadores da época, que eram maioria no Brasil.

O quinto compacto, Vencedores por Cristo V, inclui duas canções de Otis Skillings, compositor e maestro norte-americano, famoso por suas cantatas no início dos anos 1970.

Fale do Amor
Em Fale do Amor, primeiro LP gravado em 1971, a música que dá título ao disco foi composta por Ralph Carmichael, maestro e compositor norte-americano cujas canções seriam, nos anos seguintes, marca registrada do trabalho de Vencedores. Dentre elas, destaca-se Nas Estrelas:

Nas estrelas vejo a sua mão
E no vento ouço a sua voz
Deus domina sobre terra e mar
O que ele é pra mim?

Eu sei o sentido do natal
Pois na história tem o seu lugar
Cristo veio para nos salvar
O que ele é pra mim?

Até que um dia seu amor senti
Sua imensa graça recebi
Descobri então que Deus não vive longe lá no céu
Sem se importar comigo

Mas agora ao meu lado está
Cada dia sinto o seu cuidar
Ajudando-me a caminhar
Tudo ele é pra mim

Regravada no LP Se eu fosse contar, de 1973, Nas Estrelas foi uma das canções mais difundidas de Vencedores nesta primeira fase, anterior aos compositores nacionais. Tornou-se presença quase que obrigatória nos hinários da maioria das igrejas no país.

Novos Caminhos
O LP seguinte, Novos Caminhos, além da canção de Ralph Carmichael que dá título ao disco, entre outras deste compositor, traz uma inovação: uma canção de um compositor nacional, Sérgio Ricardo Leoto. Além do fato de ser Leoto um compositor brasileiro incluído neste repertório, sua história possui pelo menos um dado relevante. Ele é sobrinho da cantora Marlene, famosa intérprete da música popular brasileira, coroada rainha do rádio em 1949.

Nascida no ano de 1924 como Vitória De Martino Bonnaiutti, em São Paulo, no bairro da Bela Vista, Marlene começou a carreira aos 13 anos no programa Hora do Estudante, na Rádio Bandeirantes. Aos 16 anos, estreou como profissional na Rádio Tupi, onde adotou o nome artístico de Marlene, influenciada pela fama da atriz Marlene Dietrich. Pouco tempo depois mudou-se para o Rio de Janeiro, onde foi trabalhar no Cassino da Urca, contratada pela Rádio Mayrink Veiga e em seguida pela Rádio Globo. O sucesso mesmo só veio com a sua ida para a Rádio Nacional, em 1948.

Nos anos que se seguiram, além da famosa rivalidade com a cantora Emilinha Borba, Marlene construiu uma sólida carreira, servindo como referência para outros grandes nomes da MPB, entre eles, o de Elis Regina.

Sérgio, de tradição batista, foi por certo influenciado musicalmente pela tia ilustre, vindo ele mesmo a ser uma influência estética no trabalho de Vencedores e tendo participado anos depois, entre outros, do De Vento em Popa como intérprete, e do Tanto Amor (álbum lançado em 1980), também como compositor.

Se eu fosse contar

Jorge Camargo - Músico, compositor, escritor, poeta. Com suas canções tem abençoado a igreja brasileira ao longo dos anos. Qualidade e conteúdo traduzem bem o seu trabalho. Saiba mais acessando: www.jorgecamargo.com.br
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