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O QUE A CANÇÃO CRISTÃ PODE APRENDER COM A BOSSA NOVA? - Por Joêzer Mendonça
 
O estudioso da canção popular Luiz Tatit aponta o processo de triagem como uma das marcas centrais do processo que gerou a Bossa Nova. A “triagem” consiste em filtrar elementos cancionais (como melodia, arranjo, interpretação) e conteúdos de tradição e modernidade, a fim de estabelecer outro parâmetro de composição e performance musicais. No caso da Bossa Nova (daqui em diante chamarei de BN), veremos como a tradição e a renovação foram assimiladas e dali se extraíram componentes de excelente qualidade.

1) A valorização equânime dos parâmetros musicais

Na BN, a integração entre melodia, harmonia, ritmo, arranjo e interpretação não sobrevaloriza nenhum desses aspectos em detrimento do outro. Se na música popular anterior à BN o componente melódico-rítmico era comumente realçado pelo vozeirão, da orquestração pomposa e dos instrumentos de percussão, na BN há pouco espaço para estrelismo e exibicionismo técnico.

A música evangélica não escapou do impacto de uma geração que nos últimos 40 anos cresceu à base de uma dieta pop de solos de guitarras e cantoras-dançarinas.

2) A recusa do efeito grandiloqüente e do arroubo operístico

Ao contrário daquele pop/rock caracterizado pela busca de virtuosismo e de efeitos de arrancar suspiros, a BN renuncia ao arrebatamento vocal e aos efeitos de forte contraste. Não há viradas espetaculares de bateria, guitarras em disparada, cantores em rodopios, cantoras em figurinos extravagantes. O intérprete não se opõe à banda. E mesmo o arranjo não se sobressai, acompanhando a proposta de contenção de sons e gestos da BN.

O operismo virtuosístico das obras do Romantismo eram bastante reproduzidos na música popular brasileira até o surgimento da BN. Os reis da voz carregavam nas tintas melodramáticas e no “canto soluçado”, na “lágrima na voz”. Embora Elis Regina levasse esse estilo de cantar quase ao paroxismo, vários cantores populares abraçaram a proposta da BN de cantar sem afetação, sem malabarismos, sem a busca do excesso melodramático (a talentosa filha de Elis, a cantora Maria Rita, também é conhecida pelos exageros teatrais de suas performances).

Na música cristã, os temas falam não apenas de conversão e comunhão, temas estes que podem ser cantados sem maiores arroubos. No entanto, os conteúdos que rememoram o sacrifício de Cristo na cruz ou que antecipam cenas da segunda vinda de Jesus dificilmente podem ser cantados sem o extravasamento emocional que perpassa pela voz. Embora essa tentativa de expressar o sentimento presente no verso possa levar a certos exageros e trejeitos chamativos. E temos que admitir: até no maravilhoso black gospel americano tem gente degringolando para o malabarismo vocal e a ênfase no visual “descolado”.

3) A variedade e a densidade poética das letras

As letras da BN apresentavam simplicidade e variedade, abandonando (e depois criando) os chavões: do romantismo respeitoso de Vinicius aos poemas metalingüísticos de Newton Mendonça, passando pelo engajamento de Carlos Lyra. Em meados da década de 1950, os versos da canção popular estavam empesteados de pieguice e dor-de-cotovelo. Antes da bossa, era a fossa. Havia canções bonitas, mas carregadas de autocomiseração.

Já as letras dos anos iniciais da BN faziam o elogio da mulher amada e indicavam uma saudável convivência amorosa. Não por acaso, a canção “Chega de Saudade” simbolizava tanto um adeus às canções pesarosas quanto um aceno à música de bem com o amor, exatamente “pra acabar com esse negócio de você longe de mim”.

Apesar da gama de temas que podem ser extraídos da Bíblia e da vida comum, a canção cristã está se tornando monotemática: a exaltação apaixonada da soberania de Deus. As letras simples e os refrões sentimentais também têm seu lugar e função, mas estão se tornando o único alimento musical disponível para a maioria dos cristãos. É preciso que haja estímulo à criatividade poética e à variação temática. O livro dos Salmos apresenta estilos e temas diversificados, o que por si já é uma legítima influência.

4) A integração da canção nacional com os estilos internacionais

Na BN, a importação de procedimentos musicais (harmonia jazzística, interpretação cool) coexistiu com a adoção de estilos regionais brasileiros. Foi assim que a tradição melódica/rítmica do samba de Noel Rosa, Geraldo Pereira e Dorival Caymmi se integrou à modernidade harmônica/vocal de Gershwin, Chet Baker e Mel Thormé. Os criadores da BN foram, durante os anos 50, agregando material local e internacional sem, contudo, redundar em mera mimetização de estilos já consagrados ou da moda recente. O processo de triagem eliminou características que não se conformavam aos seus princípios de elaboração musical e modificou as estruturas musicais (melodia, harmonia, ritmo, voz, arranjo) que vigoravam na época, o que resultou na “batida diferente”, num estilo diferenciado.

A triagem pode dar a entender que a composição musical perde seu caráter intuitivo nesse processo. Claro que as decisões do compositor não são assim esquemáticas. As escolhas são, de fato, intuitivas, mas não casuais ou fortuitas. E também são movidas por decisões conscientes. Compor é um processo intuitivo-reflexivo.

Se o arquivo sonoro do compositor vem à tona no momento da composição, após a elaboração musical inicial, por vezes (se não sempre) aquele pensamento básico sofre alterações e intervenções que fogem às intenções ou habilidades do compositor. É quando entram em cena o intérprete e o produtor do estúdio, que se tornam co-autores da canção ao reformatá-la por adição ou subtração de elementos musicais e extramusicais.

Quero deixar claro que, embora a BN seja o estilo mais elegante e comedido da música brasileira, não é intenção do meu texto discutir qual gênero é bom ou não para as denominações cristãs. E ainda: como digo que a BN se pautou pela contenção lírica e pela renúncia ao efeito virtuoso, posso até ouvir dois ou três leitores reunidos apontando esse texto como crítica pessoal a alguns cantores cristãos. Mas eu apenas considerei aqui princípios norteadores de seleção de parâmetros musicais.

Sabemos que compor ou cantar sem ser alcançado pelos “disparos do front da música pop” é tarefa impossível. Cabe aos compositores, cantores e produtores a seleção das informações e experiências musicais, a fim de construir canções e interpretações que tanto façam sentido para sua geração quanto expressem novidade de valor e diferença à altura dos conteúdos cristãos que prezam.

Fonte: www.cristianismocriativo.com.br
Joêzer Mendonça é músico e faz doutorado em musicologia na Unesp. É autor do blog Nota na Pauta, onde escreve sobre arte, mídia e religião.
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